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I ENCONTRO NACIONAL DA CEPAMIGOS

Itapecerica da Serra/SP – 26-28/Set-2008

PAINEL: “Consciência e Ética”.

A CONSCIENTIZAÇÃO DA ÉTICA EM TRÊS TEMPOS

Milton Medran Moreira

1 – ESPIRITISMO E CONSCIÊNCIA

Tomamos, aqui, a palavra “consciência” numa acepção genuinamente espírita, ou seja, como o mais importante atributo do ESPÍRITO, precisamente aquele atributo que conduz a pessoa ao reconhecimento de sua individualidade, de sua condição de SER no universo.

O espiritismo, na modernidade ocidental e no âmbito da chamada cultura cristã, foi, provavelmente, o movimento de idéias mais consistente de quantos tenham visualizado o espírito (ou alma) como uma individualidade sujeita, permanentemente, ao processo evolutivo e do qual o próprio indivíduo se torna, pouco a pouco, o principal elemento propulsor. O ser é, assim, na visão espírita objeto e sujeito de sua própria evolução.

Contemporâneo do grande movimento científico que alterou o paradigma das ciências naturais, sustentando que as espécies, todas elas, ao invés de serem produtos de uma criação divina, no sentido bíblico, são resultados de bilhões de anos de mutações, o espiritismo sustentou (e sustenta) que a esse mesmo princípio está vinculada a consciência. Ou seja: introduziu no pensamento espiritualista ou metafísico do Ocidente aquele mesmo princípio como uma lei regente do desenvolvimento da alma humana, em pleno concerto com tudo o que existe na Natureza. Esse princípio, o da evolução, está presente na proposta espírita desde sua obra fundamental e primeira, O Livro dos Espíritos (1857), que, na questão 540 já deixava assinalada essa idéia, para a época, totalmente revolucionária:

“...tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo”.

Mas, será, especialmente em outra das obras de Allan Kardec,A Gênese (1868), notadamente em seu Capítulo XI ( Gênese Espiritual), que o espiritismo irá propor essa verdadeira ruptura com o dogma judaico-cristão do criacionismo, submetendo, assim, a alma das religiões às mesmas leis gerais presentes, segundo sua filosofia, em todo o Universo: a mutação permanente, como regra e como instrumento de condução ao estágio de perfeição, meta de toda a consciência.

É a partir dessa visão que o espiritismo visualiza o processo de desenvolvimento da consciência humana não apenas como um fenômeno coletivo, resultante do progresso social, mas, também, como um processo individual, ligado ao fenômeno das chamadas vidas sucessivas, através da reencarnação.

Essa visão dentro das concepções espiritualistas do Ocidente é realmente revolucionária, podendo até ser interpretada como uma verdadeira ruptura com o pensamento cristão dentro de cuja dogmática está inserido o princípio de que a alma é concebida juntamente com o corpo e que, portanto, o espírito, quando do nascimento se constitui numa verdadeira tabula rasa, destituído de experiências anteriores e insusceptível de transformações após a morte física. Ao contrário, o pensamento evolucionista-espiritualista, base filosófica do espiritismo, pressupõe um contínuo processo de transformação consciencial para o indivíduo, desde sua “criação”, como um ser “simples e ignorante”.

É com base, pois, nesses pressupostos filosóficos, que, teoricamente, se poderia visualizar o processo de desenvolvimento da consciência e conseqüente desenvolvimento da ética através de três grandes e diferentes etapas, que resolvemos assim classificar:

a – o da Consciência Adormecida;

b – o do Despertar da Consciência; e

c – o da Aquisição da Consciência Cósmica.

2 – PRIMEIRA ETAPA: A CONSCIÊNCIA ADORMECIDA .

As primeiras fases do desenvolvimento consciencial humano podem ser, metaforicamente, representadas pela figura da consciência adormecida. A doutrina espírita, em várias referências que faz, em O Livro dos Espíritos, às primeiras encarnações humanas, adequando-as à idéia judaico-cristã de “criação”, sustenta que fomos criados “simples e ignorantes”, isto é: sob o aspecto psicológico, sem maior capacidade de elaborações mentais ou qualquer tipo de abstração.

Numa primeira fase dessa longa etapa, o espírito levará uma vida basicamente instintiva. Podemos dizer que é um ser eminentemente fisiológico. Sua vida girará em torno do atendimento de necessidades fisiológicas fundamentais, tarefas que realizará impelido por fatores meramente instintivos, sem submetê-las a qualquer imperativo de consciência. Alimentar-se-á, fará sexo, buscará víveres para seu imediato consumo, se abrigará das intempéries, da mesma forma que se desenvolverão nele os fenômenos fisiológicos da respiração, da digestão, da circulação sanguínea, etc. Isto é: sem que quaisquer desses processos transitem por sua consciência.

Pode-se dizer que, nessa fase, a consciência está totalmente anestesiada. É quase nulo o livre-arbítrio e todo o seu processo evolutivo estará sendo impulsionado pelo determinismo das leis naturais.

Será numa segunda fase dessa primeira etapa, por nós, aqui, classificada como da consciência adormecida que se iniciarão as primeiras manifestações da inteligência e da razão, exercendo algum controle sobre os instintos. Mas, essas manifestações estarão fortemente vinculadas à preservação de sentimentos e interesses egoísticos. O egocentrismo será o fator predominante dessa fase. Levado por impulsos muito mais passionais que racionais, o indivíduo elegerá como sua atividade central a eliminação daquele que, de alguma maneira, possa, segundo sua acanhada visão, atrapalhar o seu desejo de posse e o próprio instinto de sobrevivência.

Foi visualizando o homem apenas sob essa ótica e nessa fase de seu processo evolutivo, que alguns filósofos cunharam a sentença: Homo homini lupus, o homem é o lobo do homem, para descrever a fase que antecedeu o “contrato social”, ou seja, o momento em que o homem primitivo, concluindo que promoveria sua própria audestruição com esse tipo de comportamento, resolveu delegar ao ente que, mais tarde, seria conhecido como Estado a tarefa de criar e administrar leis de convivência social.

Na fase que aqui estamos buscando sintetizar, porém, ainda não se estabelecera esse presumível contrato social. O homem, que num primeiro momento, agiu única e exclusivamente sob o comando instintivo, num segundo passo, mesmo com a razão ainda adormecida, já é capaz de ter lampejos de percepção de seu mundo íntimo. Já pode liberar alguns clichês mentais, incorporando-os à realidade concreta. Alguns psicólogos chamam essa fase, onde ainda a consciência está adormecida, como a “do sono com sonhos”. Mesmo, entretanto, começando a desenvolver a capacidade de sonhar com outra realidade, que não seja a dos clichês meramente egoísticos, ele ainda se comporta infantilmente. Sua vida é fisiológica e passional. O que existe, aí, é apenas um tédio que o impulsiona a uma segunda etapa cuja síntese fazemos a seguir.

3 – SEGUNDA ETAPA: O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA

Por quantos milênios terá se demorado o homem na etapa que, metaforicamente, o representamos como tendo mantido sua consciência adormecida? Por quanto tempo, terá vivido apenas impulsionado por pulsões fisiológicas e passionais? Quando terá ocorrido aquilo que a Gênese judaica, também metaforicamente, denomina do “conhecimento da árvore do bem e do mal” e que a filosofia espírita classifica como a etapa em que o espírito se manteve “simples e ignorante”?

Talvez nunca consigamos encontrar o ponto temporal dessa transição. Até porque os agrupamentos humanos se irão diferenciando, através de suas experiências. E também porque o chamado processo de criação é contínuo e aquela espécie que hoje denominamos humana é constituída de indivíduos que, psicologicamente, vivem idades diferenciadas uns dos outros.

O que se pode afirmar é que, nesse processo, o ser humano se encaminha, paulatinamente, para o ingresso naquela fase que podemos classificar como a do despertar da consciência. Dá-se esta quando o homem assume alguma consciência crítica de sua situação de ser no universo. Nessa fase, ocorrem algumas mudanças significativas, tais como:

a – o sujeito começa a ser capaz de exercer atos de determinação pessoal;

b – torna-se cada vez mais sensível a desejos de mudança;

c – adquire valores transcendentes;

d – esses valores passam a ser determinantes na busca de um sentido para a vida que extrapolam os que, até então, foram inspirados pelas paixões e pelas necessidades meramente fisiológicas;

e – reputa necessária a sociabilidade e, em decorrência dela, a solidariedade;

f – faz descobertas acerca de sua vida interior e de sua individualidade.

O despertar da consciência é, teoricamente, a descoberta da imprescindibilidade do amor, como caminho para a felicidade pessoal. Mas, nessa fase, o egoísmo segue sendo o sentimento central a dominar as ações humanas.

A filosofia espírita identifica a humanidade como ainda vivendo características dessa fase onde, embora tendo desenvolvido amplos conhecimentos acerca de si próprio, do mundo e do universo, o homem experimenta acentuada dificuldade de se liberar de dois vícios que são a matriz de todo o sofrimento: o orgulho e o egoísmo.

Considera vivermos um momento onde o homem atingiu alto índice de progresso intelectual. Este, no entanto, num primeiro momento, ao invés de impulsionar o progresso moral, parece inibi-lo. É o que diz, textualmente, a questão 785 de O Livro dos Espíritos:

“À primeira vista, parece mesmo que o progresso intelectual reduplica a atividade daqueles vícios (o orgulho e o egoísmo) , desenvolvendo a ambição e o gosto das riquezas, que, a seu turno, incitam o homem a empreender pesquisas que lhe esclarecem o Espírito. Assim é que tudo se prende, no mundo moral, como no mundo físico, e que do próprio mal pode nascer o bem”.

O raciocínio é de que o homem, em um determinado momento, se vê compelido a inverter sua visão acerca de si mesmo, partindo, necessariamente, para a conquista dos valores do espírito. É a observação que os espíritos fazem na parte conclusiva da resposta acima, quando dizem:

“Curta, porém, é a duração desse estado de coisas, que mudará à proporção que o homem compreender melhor que, além daquela que o gozo dos bens terrenos proporciona, uma felicidade existe maior e infinitamente mais duradoura”.

Para o espiritismo, um fator predominante a conduzir o homem a libertar-se desse apego material que o torna infeliz é o conhecimento da lei natural. Nesta se inserem, como valores sempre intuitivamente percebidos pelo homem a questão da imortalidade, da vida futura, da sobrevivência após a morte. Aquele que adquire a certeza de que à vida física e seus valores transitórios sucedem outros planos de vida, sempre mais plenos para o espírito, este tem um estímulo natural à prática do bem. Sua transformação não é impelida por regramentos exteriores ou pelo temor do castigo, ou pela adesão a sistemas de fé ou de dogmas, mas pela busca natural da plenitude, que implica em felicidade interior. A vida interior passa a ter, assim, especial significado. É isso que podemos chamar de autoconhecimento, aquele estágio em que a ação de nossa melhoria está diretamente vinculada a esforços desenvolvidos no universo de nosso “eu” interior e que encontram resposta através de níveis de satisfação íntima só avaliáveis pelo próprio indivíduo. O conhecimento da lei natural, aliado ao conhecimento de suas próprias necessidades básicas, enquanto espírito, conduz ao estágio de plenitude humana que harmoniza o indivíduo com o cosmo e que, neste modesto trabalho, caracteriza a etapa seguinte.

4 - TERCEIRA ETAPA: A AQUISIÇÃO DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA – ÉTICA UNIVERSAL

O espiritualismo comprometido com uma concepção evolucionista, terreno onde se situa o espiritismo, concebe a consciência como um ser rumo à plenitude. Mesmo que o espiritismo tenha como referência fundamental o homem, esse ser imperfeito, tal como o conhecemos, seja na posição de encarnado como de desencarnado (condição que não o afasta de sua essencialidade humana), o simples olhar para trás revela sua potencialidade para chegar a estágio que Kardec e os espíritos classificaram como o da perfeição. É certo que devemos tomar esse termo como sendo o da “perfeição relativa” e não absoluta, que caracterizaria Deus (“inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”, segundo o conceito da questão número 1 de O Livro dos Espíritos.).

A aquisição da consciência cósmica assinala exatamente essa transição do homem, tal como o conhecemos, para o homem do futuro: aquele que, após transitar por milênios de vidas e por diferenciadas experiências, logra superar seus grandes conflitos interiores motivados pelo orgulho e o egoísmo, elegendo como objetivos fundamentais de sua vida a aquisição do conhecimento e a prática do amor. É a ética na sua dimensão plena.

Há diferentes formas de nominar esse estágio a que estaria fadado o homem. Há filosofias que a identificam como sendo a da plena auto-iluminação. Jesus de Nazaré refere-se a ela quando fala na conquista do “reino dos céus”, acenando, também, com a admoestação do “sede perfeitos”. Todas as grandes doutrinas baseadas nas quais se institucionalizaram as religiões projetam para o homem um destino grandioso, nem sempre compreendido e assimilado pelos dogmas religiosos que terminam conduzindo ao maniqueísmo do bem e do mal, como reinados incomunicáveis disputando a conquista de almas e lhes empurrando a um destino eterno de condenação ou bem-aventurança.

Só a idéia da reencarnação aliada à do progresso, como leis das quais consciência alguma pode se subtrair, é capaz de conceber o homem sempre como um ser viável cujo destino inexorável é o de atingir o estágio que aqui chamamos de aquisição da consciência cósmica.

É bem possível que alguns homens cujo pensamento chegou até nós tenham atingido esse estágio. Talvez Jesus de Nazaré, Buda, Krishna, Lao-Tzé, Confúcio. Ninguém pode ter certeza disso, até porque suas biografias foram demasiadamente envolvidas por mitos que deram origem a crenças nem sempre compatíveis com suas mensagens originais. Mas quem examinar a essência do pensamento de todos eles irá identificar esses dois instrumentos apontados como indispensáveis e inseparáveis para conduzirem a consciência à plena harmonia: o conhecimento e o amor. Conhecer implica não apenas em tomar ciência da realidade que envolve o ser, mas, precipuamente, em tomar consciência de si próprio como agente transformador de si mesmo e do mundo de que participa.

Na visão filosófica desenvolvida pelo espiritismo, o conhecimento de si mesmo, de sua natureza como ser transcendente, leva necessariamente a um processo de contínua transformação moral. Integra a consciência a uma dimensão cósmica, atemporal, que o espiritismo identificou com a expressão perfeição, numa clara alusão de que o destino de todos nós é a interação com a suprema inteligência, que é Deus.

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