A vantagem de viver muito

Milton Rubens Medran Moreira
Milton Rubens Medran Moreira,

Assessor de relações internacionais da CEPA,
Editor chefe do Jornal Opinião do CCEPA.

Uma das vantagens de viver muito é poder constatar como, em duas ou três gerações, os costumes se transformam e, mesmo que por aparentes linhas tortas, o progresso se dá.

Chegando quase aos 83 anos desta encarnação, já nem falo no progresso tecnológico que me permitiu, por exemplo, ver o telefone como algo extraordinário que só os muito ricos possuíam. Ou o telegrama, que, em caso de necessidade de comunicação urgente, levava a gente ao guichê dos Correios para ditar, palavra por palavra, e mandar uma notícia a parente que residia em outra cidade.

Meu pai, um modesto funcionário público, tinha um rádio em casa, recurso tecnológico de que nem todos podiam desfrutar. A gente se reunia, no quarto dele, em torno daquele imenso “Telefunken” para ouvir o Repórter Esso, dando as notícias da guerra, recebidas das grandes agências de notícias, via teletipos, outro avanço tecnológico que só grandes empresas internacionais possuíam.

Avanços

Mas, não é disso que quero falar. É dos avanços que, nessas oito décadas de vida, pude testemunhar em temas como igualdade social, respeito à diversidade, combate a preconceitos em campos como sexualidade, religião, gênero, etnia etc.

Na minha cidade, havia o clube social dos brancos e dos “morenos”. Tinha-se isso como normal, e nunca vi no clube que eu frequentava a presença de um negro. Provavelmente, as normas estatutárias não proibiam expressamente, mas os costumes falavam mais alto e estimulavam a segregação.

A orientação sexual das pessoas, hoje respeitada, dava origem a expressões depreciativas, como “invertido sexual” e outras bem piores, assim como de explícita e até legal discriminação.

Não havia divórcio, por força de uma poderosa influência da Igreja. Só na década de 70, o mandamento da indissolubilidade do casamento foi superado, após anos de luta por parte de políticos mais progressistas, como foi, por exemplo, o Senador Nelson Carneiro, autor da emenda constitucional permissiva do divórcio. Alguns casais se desquitavam, mas quem estabelecesse uma nova união era classificado como “amasiado”, sem a proteção legal sequer para os filhos, registrados como ”ilegítimos”. Sob o ponto de vista religioso, adotado socialmente, o casal viveria em pecado pelo resto da vida.

Preconceitos debelados

Claro que os preconceitos subsistem. Mas seu combate mais os põem na vitrine e, com isso, somos levados a crer estarmos retrocedendo. A verdade, no entanto, é que experimentamos momentos revolucionários, de um fantástico avanço na luta contra as desigualdades e os preconceitos, tidos, ontem, como normais e mesmo como expressões de “moralidade”.

Quando vejo mulheres assumindo importantes funções no campo da política, da justiça, das artes e das ciências, sou transportado mentalmente a tempos em que isso era simplesmente impensável. Na Magistratura, não existia espaço algum para a presença feminina. Nas corporações militares ou policiais, seriam inimagináveis suas presenças. No Ministério Público, em que ingressei em 1975, embora não houvesse vedação legal, as mulheres que buscassem ingresso terminavam por ser eliminadas. Minha turma foi a última composta exclusivamente de homens, em meu Estado. Só no concurso seguinte, duas ou três mulheres obtiveram ingresso.

Quando vejo um negro na Academia Brasileira de Letras, do porte de Gilberto Gil, e ligando a televisão, me deparo com negras inteligentes e argutas como repórteres ou competentíssimas comentaristas políticas e econômicas, dou-me conta de como a sociedade foi preconceituosa com eles e com elas, e o quanto avançamos em tão poucas décadas.

Sombras e luzes

Como costuma dizer meu amigo, e notável escritor espírita Jon Aizpúrua, negar o progresso de nosso tempo, é contemplar a árvore deixando de ver a floresta. E, por falar em floresta, também no campo do meio ambiente, estamos vivendo tempos de extraordinários avanços conscienciais.

Não se mudam hábitos sem que, previamente, se alterem padrões de consciência. E é nesse campo que estamos avançando celeremente. Resultados concretos, muitas vezes, custam um pouco a chegar. Mas a lei de progresso, à qual explicitamente se alinha o espiritismo, desde sua origem, é avassaladora e não pode ser detida.

O pessimismo a que muitos, inclusive espíritas, se deixam conduzir, deriva justamente da capacidade que desenvolvemos de exigir mais de nós e da sociedade do que exigíamos antes. Da capacidade de nos indignarmos com as injustiças que, ontem, tínhamos medo de enfrentar.

Talvez me restem poucos anos de vida, mas quando tiver de partir, vou com o espírito cheio de ânimo, agradecido pelas diversificadas experiências que esta encarnação me proporcionou, ratificando a ideia de que viver é progredir indefinidamente. Só seremos capazes de aquilatar a luz que, paulatinamente, se derrama sobre o mundo, na medida em que olharmos para trás e rememorarmos o quanto de sombra já debelamos, de uma para outra geração.