Sobre Homens e Mulheres

Milton R. Medran Moreira
Milton R. Medran Moreira – Radialista e jornalista. Promotor e Procurador de Justiça do ministério Público do Rio Grande do Sul. Presidente da CEPA – Associação Espírita Internacional de 2000 a 2008. Membro do CCEPA – Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Editor do jornal Opinião por 30 anos.

Punido a jogar sem público, por violências praticadas por sua torcida, um dos clubes do Campeonato Brasileiro fez um pedido à Confederação de Futebol: permitir que assistissem a seus jogos apenas mulheres e crianças.

O pedido foi negado, mas não deixava de ter apreciáveis fundamentos. Afinal, crianças, via de regra, não conhecem a violência que impregna a sociedade, e guardam a ternura na alma. E mulheres são, em geral, menos belicosas e violentas que os homens de cujas truculência e brutalidade têm decorrido as barbáries nos ambientes e entornos futebolísticos.

É verdade que o noticiário policial do país tem revelado episódios de extrema violência protagonizado por mulheres, desde que os costumes as levaram a participar dos ambientes e das atividades antes exclusivas do então chamado "sexo forte". Compartilhando com eles hábitos e contingências, são levadas a comportamentos e reações igualmente agressivos. Mas isso não abala o entendimento de que a mulher é menos suscetível do que o homem às práticas violentas.

OS DOIS POLOS

A ideia de que a alma feminina guarda, mais do que a dos homens, predisposição para a ternura, para a tolerância, o diálogo e a pacificação, tem sido mesmo um dos argumentos dos movimentos feministas. Dar poder à mulher, investi-la de responsabilidades políticas, administrativas, gerenciais, são fatores trazidos como instrumentos capazes de tornar o mundo melhor e mais bonito. Todos os setores onde se lhes dê mais abertura, estariam beneficiados justamente pela força de fatores ligados a algumas qualidades historicamente tidas como intrínsecas às mulheres.

Isso não significa que homens não possuam ou desenvolvam essas qualidades atribuídas às mulheres. A distinção que a contemporaneidade faz entre sexo e gênero permite melhor entender que, independentemente de fatores biológicos, todos desenvolvemos, em maior ou menor grau, em nosso interior, energias da polaridade masculina e feminina. E o "anima" e o "animus" de Jung, ou o "yin" e o "yang", da filosofia chinesa, presentes, em maior ou menor grau, em cada um de nós.

DIREITOS E FUNÇÕES

Por muito tempo, no âmbito de nossa cultura, um olhar estratificado acerca das distinções psicológicas entre homens e mulheres conduziu a uma severa limitação de atividades externas disponibilizadas a estas. Levava-se ao extremo o pressuposto de que o homem detinha a força, o vigor físico - e até intelectual, diziam alguns -, e a mulher, mais frágil fisicamente, era detentora de sentimentos mais refinados que a predispunham a permanecer em casa, cuidando do "interior", enquanto o homem lutaria pela subsistência de todos, mediante o trabalho externo.

É nesse contexto que vamos encontrar em O Livro dos Espíritos conceitos que referendam a igualdade de direitos entre o homem e a mulher - um avanço para a época -, mas com a ressalva de que essa igualdade de direitos não significaria a igualdade de funções: "É preciso que cada um tenha um lugar determinado, que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um de acordo com a sua aptidão", justifica a questão 822-a.

AVANÇOS

Os tempos andaram e, mais que a conquista de direitos iguais, as mulheres se habilitaram ao exercício de funções antes atribuídas exclusivamente aos homens. Praticamente já não existem atividades profissionais ou administrativas e políticas a que elas não tenham acesso.

É, pois, tempo de, também aí, contextualizar Kardec e seus interlocutores espirituais, reconhecendo que aquela distinção tinha, predominantemente, um conteúdo cultural, modificável com o tempo.

Concomitantemente, porém, admita-se que, sim, há uma polaridade masculina/feminina, milenarmente reconhecida em todas as culturas, que, independente do gênero no qual estagiamos, todos desenvolvemos no espírito. E que a conjugação dessas energias – a masculina e a feminina -, quando presente em uma atividade, enriquece-a e lhe dá mais amplitude social.

A ausência da mulher, em cuja alma predominam sentimentos refinados da polaridade feminina, em qualquer setor social enfraquece-o e tende a brutalizá-lo.

Postado no CCEPA Opinião nº 321 (setembro/2023).